Como assim, um C com acento agudo?!Sim, o servo-croata tem um acento agudo em cima da letra C. Ou melhor, uma letra específica que parece um C com acento: é o Ć. E não venha com essa cara de esquisitice: nós temos o Ç-cedilha, que é simplesmente uma vírgula debaixo do C, e achamos muito normal, não é? Na verdade, o alfabeto latino do servo-croata (pois, lembremos, eles também usam o cirílico) é muito fácil de aprender e usar, pois segue a regra da ortografia fonética: para cada letra, um som; para cada som, uma única letra. Se fosse assim em português, não teríamos inúmeras letras e construções para representar o som de /s/, que pode ser escrito com S, SS, C, Ç, XC, SC... Ao mesmo tempo, o nosso S pode às vezes ser /s/, como em "sonho", e às vezes pode ser /z/, como em "casa". E o nosso G pode ser /g/ como em "gato" e pode ser /zh/ como em "lógica". Sem contar as inúmeras variações que a simples letrinha X pode ter: /sh/ em "xícara", /ks/ em "táxi", /z/ em "exercício", /s/ em "sintaxe"... E você ainda tem a audácia de dizer que servo-croata é que é uma língua complicada?! Por isso é que um estrangeiro pira quando tenta aprender português. Porque a língua deles, em geral, tem uma maneira muito mais regular de ser escrita. Ou seja, as ortografias das línguas européias, especialmente as do Leste, são extremamente normatizadas, até rígidas. E simples. Para provar isso e facilitar a vida de quem vai ler os próximos posts do Yugoboy, fiz aqui um pequeno guia de como pronunciar as letras em servo-croata, rápido e fácil. Agora vamos lá, incorporem o baixinho da Xuxa adormecido em vocês, encham os pulmões, projetem a voz e repitam comigo em alto e bom som:
Um grande problema é que, na internet, muitos falantes de servo-croata têm a péssima mania de omitir os hačeks (aquele que parece um acento circunflexo ao contrário) e tracinhos em cima de Š, Ž, Č, Ć e Đ, fazendo com que eles fiquem indistinguíveis de S, Z, C e D (assim como certos falantes de português têm o péssimo hábito de omitir acentos, né?). Pra eles é fácil, porque eles já sabem como se pronuncia. Mas pra nós, "gringos", é uma zona. E pior que boa parte da mídia estrangeira reproduz essa besteira, fazendo a pronúncia ficar histriônica. É por isso que a Fátima Bernardes chama o Karadžić (Cáradjitsch) de "Caradzítsch". O final "ić" eles já sabem como funciona, mas o resto fica uma salada... A esquizofrenia dos alfabetosOs sérvios usam dois alfabetos para escrever sua língua: o latino (como o nosso) e o cirílico (como o russo). Quando digo que "usam os dois", não significa que ora usem um, ora usem outro. Significa, muitas vezes, que usam ambos ao mesmo tempo. É uma certa esquizofrenia, e o visitante pode demorar um tempo a se acostumar. Mas não tem outra opção. Uma das coisas mais comuns são jornais em que o texto é publicado em latino mas os anúncios vêm em cirílico. Nos restaurantes e cantinas (kafane), cardápios podem ter o título em cirílico e a descrição dos pratos em latino. As placas de rua podem ter o nome do logradouro maior em cirílico e, embaixo, uma versão menor em latino - quando não o nome antigo da rua (isso dará outro post). Apesar do uso indistinto, os dois alfabetos servem para escrever exatamente a mesma língua. E cada letra em latino tem correspondência exata em cirílico, e vice-versa (lembram-se da história do croata Ljudevit Gaj e do sérvio Vuk Karadžić no post anterior? eles combinaram este emparelhamento para facilitar a ortografia). Ou seja, para um sérvio tanto faz escrever Београд ou Beograd, Југославија ou Jugoslavija, палачинка ou palačinka: é exatamente igual. Isso significa que é simples fazer a transliteração (ou seja, converter de um alfabeto a outro). Você só tem que aprender os dois alfabetos... :o) À primeira vista, pode parecer totalmente aleatório o fator determinante que define qual alfabeto será usado em cada caso. E, à segunda vista... também o é. Não é muito fácil encontrar um motivo claro que explique a preferência por esta ou aquela forma de escrever. Fora de Belgrado (ou das zonas metropolitanas em geral), é mais fácil encontrar inscrições apenas em cirílico. O latino está mais associado a uma cultura pró-européia, cosmopolita, ligeiramente "liberal". O cirílico, por outro lado, costuma ser o favorito dos nacionalistas, tradicionais, religiosos e que defendem uma aproximação maior com a Mãe Rússia. Mas não exclusivamente. Sérvios perto da fronteira com a Croácia e a Hungria podem preferir o uso do latino simplesmente para facilitar a comunicação. O cirílico é aquele alfabeto do tipo russo que lembra várias letras gregas e que muita gente conhece porque tem uma letra que parece um R ao contrário (aquilo, um Я, tem som de "iá"). Ele foi inventado por monges búlgaros na Macedônia, então o centro religioso da Igreja Ortodoxa, cheia de monastérios onde copistas se esmeravam na arte da caligrafia. Na verdade, não foi inventado por São Cirilo, como muitos acham. Cirilo e Metódio criaram, na verdade, o alfabeto glagolítico, que é bem diferente do cirílico. Só depois, ao ser criado um sistema mais simples e familiar (misturando aspectos tanto do grego quanto do latino), é que resolveram batizar o novo alfabeto com o nome do santo. Com a catequese ortodoxa espalhada entre os povos eslavos, o cirílico foi adotado pelos sérvios, pelos russos e por boa parte dos povos que os russos dominavam (como os tártaros da Ásia Central). Hoje, além da Sérvia, de Montenegro e da Macedônia (todosex-partes da Iugoslávia), é restrito às áreas da antiga União Soviética (o Cazaquistão e o Turcomenistão, por exemplo), à Bulgária e à distante Mongólia. Outra língua que usa ao mesmo tempo os dois alfabetos é o romeno, mas pelo menos em lugares diferentes: na Romênia propriamente dita, em latino, e na Moldávia, onde a língua é escrita em cirílico e chamada de "moldavo" (embora seja igualzinha, igualzinha). O cirílico sérvio é um pouquinho diferente do russo. Tem algumas letras que foram inventadas só para ele: o Љ (som de lh), o Њ (som de nh), o Џ (som de dj), o Ђ (som de dsch) e o Ћ (som de tsch). E, por outro lado, não tem as estranhas vogais e ditongos do russo, como Я (iá), Ю (iú), Ё (iô), Ы (î), Э (é) e Й (i semi-vogal, que eles trocam por J).Em tempo: os algarismos (1, 2, 3, , 4... 9, 0) são iguais nos dois. Pelo menos isso, não? Sérvio, Croata ou Servo-Croata?Todo mundo pergunta: "E que língua se fala lá na Sérvia?". É algo que faz titubear um pouco, e dá uma vontade tremenda de parar, dizer "senta aqui" e começar a explicar. Mas nem todo mundo está interessado, então a resposta padrão, simples e simplificadora, é: - Sérvio, ué. Mas não é bem assim. E aí este post equivale à tal explicação detalhada que a questão de fato merece, que não é nada simples, e que até hoje suscita ânimos nacionalistas e etnocêntricos por lá. Então "senta aqui" que lá vem História. As línguas eslavas do sul da Europa, mais especificamente dos Bálcãs, são todas muito parecidas. Um esloveno entende um croata, que entende perfeitamente um sérvio, que entende com certo esforço um macedônio, que entende muito bem um búlgaro. A Península Balcânica é como a Península Ibérica: as duas têm grande diversidade de línguas e etnias, mas unidas por uma semelhança geral. E, como ficam nas pontas da Europa, foram influenciadas por várias culturas externas, fossem por conquista externa de impérios islâmicos (mouros na Ibéria, turcos nos Bálcãs) ou penetrações internas (judeus e ciganos). A diferença é que lá na ponta oeste só existe Portugal e Espanha, o que dá uma impressão de só haver duas culturas. Mas a Espanha, malcomparando, é como era a Iugoslávia: sob uma capa de uniformidade guarda uma grande diversidade interna. Então lá você tem os castelhanos (que predominam), os catalães (orgulhosos de sua cultura de rincão), os asturianos (quase esquecidos e que não fazem mal a ninguém), os bascos (que não têm nada a ver com nada) e os galegos (que falam uma língua quase igual ao português). A Iugoslávia era a mesma coisa: tinha os sérvios (que predominavam, pelo menos política e militarmente), os croatas (orgulhosos de sua cultura de rincão), os eslovenos (quase esquecidos e que não fazem mal a ninguém), os albaneses (que não têm nada a ver com nada) e os macedônios (que falam uma língua quase igual ao búlgaro). No final da Idade Média, todos falavam uma língua comum: o chamado eslavônico ou proto-eslavo eclesiástico, que era a língua vernácula da Igreja Ortodoxa (como o latim para os católicos). Do mesmo jeito que o latim vulgar sofreu modificações e influências externas no Ocidente, dando origem às várias línguas latinas (francês, espanhol, italiano, português...), no Leste o proto-eslavo também foi se modificando em cada lugar, dando origem aos idiomas que existem hoje. Aliás, assim como a família latina se divide em três ramos (Galo-Romance é francês e provençal; Ibérico é castelhano, português, catalão; Ítalo-Oriental é italiano, sardo, romeno, aromeno), também a família eslava se divide em três: as Eslavas Orientais (russo, bielorrusso e ucraniano), as Eslavas Ocidentais (polonês, tcheco e eslovaco) e as Eslavas Meridionais, ou do Sul (servo-croata, esloveno, macedônio e búlgaro). Cada uma das línguas de um mesmo ramo é bem parecida entre si, e por isso mutualmente inteligível (um bielorrusso entende russo; um eslovaco entende tcheco). Por isso, como vimos, croatas e sérvios sempre puderam conversar, tomar uma boa rakija e xingar a mãe dos húngaros (que não são eslavos!!) sem nenhuma dificuldade. O problema é que, no final da Idade Média, esses povos-irmãos foram separados por impérios vizinhos que conquistaram os Bálcãs e os dividiram ao meio, ou em três: os turcos otomanos vieram da Ásia, pelo sul, e dominaram a Bulgária, a Sérvia e Montenegro. Os húngaros vieram do noroeste e dominaram a Voivodina (hoje no norte da Sérvia), a Eslovênia, a Croácia e a Dalmácia (no litoral). Os russos vieram do nordeste e pegaram um naco da Moldávia, Bessarábia, Valáquia e Dobruja, que hoje fazem parte da Romênia. E assim as línguas se dividiram, cada uma recebendo influência do respectivo império dominador. O domínio turco, apesar de muito violento (ou talvez justamente por isso), durou 500 anos. Nesse tempo, é inevitável passar algumas influências na religião, na culinária e, principalmente, na língua. Vamos lembrar que, quando falamos de dominação imperial, não estamos falando de colonização: não é como se um monte de turco tivesse se mudado para os Bálcãs da noite para o dia (com exceção dos húngaros na Voivodina e na Transilvânia, que de fato colonizaram). Quem vinha era a elite, os guerreiros, os poucos que exerciam função administrativa. A massa, a população da base, o agricultor, o ferreiro, o pastor, isso tudo continuava com sua cultura - neste caso, eslavos. Com o tempo, os russos foram batidos de volta pro norte e perderam lugar pros turcos. E os húngaros, gradativamente, foram sendo dominados pelos Habsburgos da Áustria, que falavam alemão, até o império deles ser absorvido e virar Áustria-Hungria, levando as terras eslavas junto. Aliás, húngaros e turcos falam duas línguas totalmente bizarras que não têm absolutamente nada a ver com as línguas indo-européias que conhecemos: em todo idioma que você conhece, "mamãe" é com M e a ordem normal da frase é sujeito-verbo-predicado, não é? Pois não é assim nem em húngaro (anya) nem em turco (ana). E, pior: apesar disso, turco e húngaro não se parecem entre si. Assim, o croata sofreu influências do alemão e um pouco do húngaro, o sérvio sofreu mais do turco e do grego. Por sinal, some-se a isso as diferenças de religião: no início, todos os eslavos eram pagãos. Quando chegaram aos Bálcãs, os croatas foram catequizados pelos católicos, de Roma, e os sérvios foram cristianizados pelos ortodoxos, da Igreja Bizantina em Constantinopla (cuja língua de referência era grego). Por isso, também, os croatas liam a Bíblia em latim e os sérvios liam em grego. No meio disso tudo, havia os eslavos (sérvios ou croatas) que foram convertidos ao islamismo, lendo o Alcorão escrito em turco com alfabeto árabe. É claro que, ao longo de séculos, isso também conta como influência na estrutura da língua e em vocábulos específicos. Mas a base da língua - a estrutura, as preposições, conjunções e o vocabulário para coisas do dia-a-dia - continuava enraizadamente eslava. No século XIX, quando as ondas nacionalistas românticas varreram a Europa e os impérios começaram a soçobrar, intelectuais e literatos de ambos os lados (turco e austro-húngaro) começaram movimentos para reaproximar as culturas eslavas do Sul. Afinal, originalmente eram uma única cultura, apenas circunstancialmente dividida entre impérios diferentes. Do lado croata/católico, o grande incentivador dessa reaproximação foi Ljudevit Gaj, que estudou em Budapeste. Do lado sérvio/ortodoxo, o prócer da reforma foi Vuk Karadžić (nada a ver com Radovan Karadžić, o "criminoso de guerra"), que estudou em Viena. Os dois viraram amigos, trocavam muitas cartas, e escreveram livros que lançaram as bases de uma nova língua comum, com ortografia, gramática e vocabulário padronizados: o servo-croata. Claro que algumas diferenças básicas continuaram. Por exemplo, quando querem perguntar "o quê?" os sérvios de Belgrado dizem "šta?", os croatas de Zagreb dizem "što?", os croatas do litoral dizem "ča?" e os croatas dos Alpes dizem "kaj?". Também, dependendo do lugar, a vogal tônica "e" pode virar "i" ou "ije", tanto que em Belgrado os nenéns mamam "mleko" (leite), em Zagreb mamam "mlijeko" e em Vukovar mamam "mliko". Mas todos chamam a própria mamãe de "majka", todos chamam a mãe dos outros de "kurva", todos dizem que o céu é "plav" (azul) e todos bebem rakija. As obras de Karadžić e Gaj contribuíram muito para normatizar os dialetos do sérvio e do croata como apenas variantes de um idioma unificado. Ainda estava na moda o pan-eslavismo, e todo esforço por unificar, padronizar e incluir era valorizado. E, de fato, isso foi reconhecido por lingüistas no resto do mundo (principalmente da França, da Alemanha e da Rússia) e oficializado depois da Primeira Guerra Mundial, quando as terras dos eslavos do Sul (sérvios, croatas, eslovenos, macedônios) foram unidas em um novo país chamado Iugoslávia (de jug, que quer dizer "sul"). do qual o servo-croata se tornou um dos idiomas oficiais (junto com o esloveno e o macedônio). Obviamente, o macedônio era falado na Macedônia; o esloveno, na Eslovênia. E o servo-croata, em todo o resto: na Sérvia, na Croácia, em Montenegro e na Bósnia - que ficava no meio de tudo e abrigava tanto católicos quanto ortodoxos quanto muçulmanos, concentrados na capital regional, Sarajevo. Assim se manteve durante a época de Tito, até a Iugoslávia se dissolver em sangrentas guerras civis entre 1991 e 1995 (sem contar Kosovo, que é outra história). Com a ascensão do nacionalismo nos anos 1990, e com o ódio etno-religioso entre povos irmãos, de uma hora para outra cada pedaço da esfera lingüística servo-croata começou a reivindicar autonomia. Os croatas disseram que tinham tido sua "verdadeira" língua oprimida desde o século XIX, declararam "independência idiomática" e passaram a riscar do dicionário as palavras que consideravam "sérvias demais". Fizeram uma verdadeira "limpeza lexical" (paralela à limpeza étnica) para ter um vocabulário "puro", de raízes plenamente eslavas, ou alemãs. E aqueles sérvios e croatas que tinham se convertido ao islamismo inventaram uma etnia absolutamente inexistente até 1990, chamada "bósnios". Pior: até em Montenegro, que embora fosse uma república distinta sempre se assumira de etnia sérvia e de língua sérvia, inventou-se um tal de "idioma montenegrino" (ou língua-mãe), que nada mais era que o servo-croata com outro rótulo. Gerações e gerações que cresceram aprendendo servo-croata na escola, lendo servo-croata nos jornais, ouvindo servo-croata no rádio e na TV e falando variações dialetais de servo-croata em casa, de repente, passaram a dizer que falavam ou sérvio, ou croata, ou "bósnio" (!!) ou "montenegrino" (!!!). Como meu amigo Nikola gosta de dizer: - Eu só estudei uma língua no colégio. Mas, a cada país que fica independente, eu adiciono um idioma no meu currículo. Virei poliglota sem ter de fazer esforço! O dicionário de bolso sérvio-português que comprei em Belgrado, segundo os sérvios que conheço, é na verdade de servo-croata, porque sua autora tem mais de 40 anos e foi educada na língua unificada. Assim como o lançado pela editora Porto, portuguesa, especializada em dicionários, é de "Português-Sérvio e Croata". Esse "e" em lugar do hífen faz muita diferença. Perguntei uma vez ao meu professor de sérvio (que se recusa a dizer que ensina servo-croata) como pode um idioma de repente morrer, ser desmembrado, em um tempo tão curto, de menos de uma geração. Que uma língua é uma marca cultural poderosa demais, entranhada demais, plasmada demais para ser desfeita no espaço de três, quatro anos. Que ninguém pode esquecer uma língua da noite para o dia e substituí-la artificialmente. E ele respondeu: - Quando se tem uma guerra, pode. E isso foi só um resumo. Se quiser saber mais, você pode ler aqui. |
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