Conexões serbo-brasileiras: festas e bares

{ 7:58, 8/11/2008 } { Kategorija posta lugares } { 0 Komentara } { Link }

Existem mais laços em comum entre o Brasil e a Sérvia do que crê nosso vão clichê de citação shakespeariana. O número de pessoas que transitam entre lá e cá só tem aumentado nos últimos anos, bem como as instituições que divulgam trabalhos de um lado para o outro. Por "instituições" não estou falando de programas de embaixada, casas de cultura, museus nem nada parecido. Estou falando de festas como a GoEast, no Rio, e a indie-Go!, em Belgrado, e de lugares como a Confeitaria Choko, em Belgrado, e o Restaurante Beograd, em São Paulo. E, como se fosse pouco, existe o programa de rádio Brazilska èorba (ou Caldo Brasileiro), que toca música tupiniquim (ou tupinikim, hehehe) para os ouvidos sérvios.

Todo sábado à tarde (de manhã para o fuso horário de Brasília), o jornalista Predrag Dragosavac, conhecido como Pedja, toca samba, choro, drum'n'bossa, MPB e outros ritmos que para nós são muito familiares, mas que nos Bálcãs são tão exóticos quanto as batidas deles soam para nós. O programa é transmitido pela rádio B202, que faz parte da RTS (Radiotelevizija Srbije), a empresa pública de comunicação da Sérvia. Além de música, o Brazilska èorba tem jornalismo, com entrevistas com artistas, autoridades e personalidades de alguma forma ligadas à realidade brasileira.

Pedja é conhecido por ter um radar apurado para esses laços entre o Brasil e a Sérvia. Todo brasileiro que passa por Belgrado é convidado para ir ao programa e bater um papo - mesmo que seja em inglês, com tradução simultânea. Um dos mais recentes foi o Ronaldo Lemos, do Creative Commons Brasil, que conversou com Pedja sobre como o país avançou nas novas políticas de gestão de direitos autorais. Os sérvios, aliás, são bem avançados na área de cultura livre e apropriação das novas tecnologias de comunicação de forma contra-hegemônica (vamos falar mais disso depois).

Além de editar e apresentar o programa, Predrag Dragosavac é também colaborador do jornal Glas Javnosti (A Voz do Público) e do guia cultural Singidunum Weekly. Seu último texto, publicado na semana passada, foi uma crítica do Tropa de Elite, que recentemente entrou em cartaz por lá com o título Elitna trupa.

(Detalhe: em sérvio, todo título de filme, livro, programa de TV ou rádio, nome de banda ou de disco, tudo isso fica só com a primeira letra da primeira palavra em maiúscula, obrigatoriamente, a não ser que tenha nome próprio depois)

Pedja ainda não sabia quando contei a ele sobre a GoEast, a festa produzida por um grupo de amigos aqui no Rio que toca ritmos ciganos balcânicos remixados com batidas eletrônicas - um estilo recente chamado de BalkanBeat. O gênero é popular na Alemanha, Áustria e Suíça porque estes três países germânicos atraíram grande quantidade de imigrantes iugoslavos nos anos 1990, quando a situação em sua terra natal era de guerra civil e crise econômica. A GoEast está fazendo um ano com sua quarta edição HOJE, sábado 8/11/2008, no CineLapa (Rua Mem de Sá, 23 - lista amiga aqui). As atrações, além da música que se não escuta em nenhum outro lugar, incluem degustação gratuita de rakija (o aguardente de frutas típico dos Bálcãs) e narguilé (o fumo a vapor que é herança turca).

Do outro lado, o DJ Nikola Grujiĉ toca toda sexta-feira na indie-Go!, a festa de indiepop e rock desconhecido que equivale à nossa Maldita da Casa da Matriz. Só que, lá, o desconhecido é a gente. E Grujiĉ agrada o povo quando bota pra tocar bandinhas super queridas da comunidade rocker carioca, como Luisa Mandou um Beijo. Se elas não são muito disseminadas por aqui, imagine na Sérvia. O DJ também é pesquisador do indie brasileiro e, embora nunca tenha vindo, sonha com o dia em que vai botar os pés em Curitiba. Enquanto isso, passa o resto da semana administrando o rock bar Pub Brod ('brod' em sérvio é "barco"), que por sua vez tem lá suas semelhanças com a Drinkeria. Como dá pra ver, a história se repete.

Durante quase todo o ano, a indie-Go! acontece na boate Akademija, uma das mais tradicionais de BGD (onde, nos anos 90, o povo se reunia pra conspirar contra o Miloševiĉ ao som de Sonic Youth). Mas, no verão, a festa se muda para o Kalemegdan, a fortaleza medieval bem no centro de Belgrado, onde acontece ao ar livre, em pleno fosso seco do castelo, cercado por muralhas de pedra com mais de 1000 anos de história. É freaking e arrebatador ao mesmo tempo. Tem que ir, pagar e dançar pra sentir.

Aliás, não tem que pagar, não. Porque detalhe: as festas de rock em Belgrado não cobram entrada.

Se esse estilo for "alternativo demais" para o gosto sérvio (o que é difícil, já que lá é um lugar onde o altie parece ser maioria), o mainstream da cultura brazuca pode ser conferido na Confeitaria Choco, um bar com decoração de muito bom gosto - dizem - onde toca o créme de la créme de nossa música: axé, funk e brega. O dono é o baiano Gustavo, que vive em Belgrado há anos. Uma vez por mês, o lugar é o ponto de encontro do bate-papo promovido pela Embaixada Brasileira na Sérvia. Conta-se que o próprio embaixador costuma pegar o violão e dar uma canja de vez em quando. Isso eu ainda não vi.

Fora isso, existem os turistas, mochileiros e (i/e)migrantes que fazem as relações pessoais: casando, namorando e trabalhando com alguém da outra cultura. Mas isto fica para um próximo post.


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