Belgrado 2006 . parte VI . "A Noite Final"Eu deveria estar em Londres na manha da quinta-feira, 10 de agosto, quando o mundo caiu por causa da descoberta de uma ameaça de atentados nos aviões saindo do aeroporto de Heathrow em direção aos EUA. Mas estava em Belgrado, achando que viajaria no dia seguinte - depois da confusão dos e-tickets, minha passagem foi remarcada para a sexta, 11. É obvio, no entanto, que o vôo acabou cancelado e ganhei mais um dia na capital sérvia, dessa vez às custas da British Airways. Depois de voltar ao primeiro albergue, que tinha sido recomendado pelo pessoal da embaixada servia em Brasília, deixei meus 49kg extra-corporais por lá' e rumei para o Mausoléu de Tito, nome nao-oficial da "Casa das Flores". O museu foi construído junto ao palacete (ate' modesto para um "ditador") onde o líder iugoslavo morava e tem esse nome porque recebia ininterruptamente peregrinações de iugoslavos e estrangeiros (principalmente da África e Ásia, com os quais a Iugoslávia colaborou durante o Movimento dos Não-Alinhados) que traziam montanhas de flores para o tumulo do marechal. Depois de 1991, no entanto, as visitas foram minguando e, hoje, o que o Mausoléu guarda são presentes recebidos de lideres do MNA (especialmente vestes típicas africanas, asiáticas e até latino-americanas) e uma coleção de bastões usados no Festival Anual da Juventude Iugoslava (eram passados de mão em mão entre adolescentes de todas as repúblicas da federação). Segundo Srboslav, a maior parte do acervo foi roubada e vendida pelos próprios funcionários do museu, durante a crise econômica causada pela Guerra da Bósnia. No centro do prédio, porem, o próprio morador ainda recebe as raras visitas: o corpo de Tito sepultado (não enterrado) dentro de um bloco de mármore branco cercado por um jardim japonês. Diz a cultura popular iugoslava que Tito realmente adorava crianças e jovens, e justificava todas as suas políticas para a juventude iugoslava, como futuro da nação. As ma's línguas, porem, já' derrapam para a acusação mais obvia. Mas, diferente de mão e Lavrenti Beria, nunca se provou nenhuma suspeita de pedofilia contra o "Amigo Tito" (Druze Tito, em sérvio). Só' o que se vê no jardim são esculturas de meninos nus erguendo tochas ou em uniforme de partizans, relembrando a resistência iugoslava na II Guerra. Para quem vê de fora, e' muito difícil saber que sérvios, bósnios, macedônios e *alguns* croatas e eslovenos lutaram juntos contra os nazistas, passaram quatro décadas construindo um pais prospero e democratico-dentro-dos-limites, para depois se matarem nos anos 90 sem motivo aparente. A união destes povos era incentivada e trabalhada por Tito com o slogan "fraternidade e unidade", martelado diversas vezes na cabeça dos iugoslavos desde o maternal: de Pioneiros (escoteiros comunistas), passavam `a Juventude Comunista e finalmente `a Liga dos Comunistas da Iugoslávia, nome oficial do PC de Tito. Outro comentário que Srba fez durante nossas conversas e' que a economia do pais foi toda organizada levando em conta uma integração em rede entre todas as seis republicas. Assim, se uma delas tinha matéria-prima mas não parque industrial para um determinado setor, enviava os insumos para outra, que fabricava o produto e a distribuição era nacional. Em troca, recebia recursos e equipamento para o setor que dominasse. O mesmo acontecia com profissionais: se sobravam engenheiros na Croácia, eles iam para a Servia, ou vice-versa. Neste sistema não faltavam empregos nem material para a industria. Alias, Srba conta que quando era criança não faltava nada, nem mesmo bens de consumo e algumas extravagâncias. Enquanto havia fila do pão em Moscou, ninguém passava necessidade em Zagreb, Liubliana, Sarajevo ou Belgrado. Tudo isso mudou com a dissolução e as guerras. Cada republica passou a ter carência de mão e matérias-primas, nas áreas que não dominava. A integração acabou e todas elas tiveram que depender de importação. Muitas vezes, da Europa Ocidental, Japão e EUA. A única explicação plausível que os sérvios me deram sobre o que pode ter acontecido para desestabilizar essa união tão produtiva soa meio teoria conspiratória, mas é factível: influencia externa. Tanto Srba quanto sua amiga Anna, uma filha de diplomata, acreditam que EUA e alguns paises europeus, principalmente a Alemanha de Kohl, tinham muito interesse em enfraquecer e fragmentar a Iugoslávia. Dessa forma, a concorrência industrial diminuiu (não que o pais fosse grande exportador, mas era auto-suficiente) e o mercado se abriu para a industria ocidental. Tudo isso foi conversado nos cafés da ulitsa Knez Mikhailova (em bom portugues, Rua do Principe Miguel), da Trg Republike (Praca da Republica), da Starograd (Cidade Velha) e da Skadarska (sem traducao). Belgrado vive muito da boemia. Praga so' tem fama. E o bom gosto nao se traduz em precos altos: tudo custa mais ou menos a mesma coisa que no Brasil. Um euro vale 82 dinares, ou R$ 2,90. Se uma garrafinha de meio litro de coca-cola custa 50 dinares, isso da' mais ou menos R$ 1,60, o que e' bem razoavel. Um bom palatchinque com recheio de Nutela nao passa de 120 dinares, ou R$ 4,50. A musica que toca nesses lugares, em geral, é rock para os mais descolados, jazz para um público "adulto", ou um pop que varia do atual até a xaropada FM light. Todos os lugares trazem um cuponzinho com a conta junto com a comida ou bebida - é obrigatorio, por lei. Assim, nao se precisa pedir a conta: basta somar os papeizinhos no final e ja' se sabe o valor. Nao se cobra gorjeta. Depois de comprar mais uns 20 cartões postais, finalmente me despedi de Srboslav, pedindo desculpas por ter ocupado tanto da semana dele, e voltei para o albergue, ja' prevendo que no dia seguinte teria problemas com a partida pra Heathrow. Nao precisava ser muito vidente para saber que, de fato, o voo foi cancelado. Era apenas a manha de sexta-feira, e eu teria que ir pela terceira vez ao escritorio da British. Mas um espirito estranhamente estoico tomou conta de mim e liguei o "foda-se" no piloto automatico. Fui ver os museus que faltavam. 1) Museu Etnográfico da Iugoslávia - chato. Uma gigantesca colecao de tapetes, objetos de uso cotidiano e roupas tipicas das seis republicas. Algumas maquetes bonitinhas de vilarejos e casas tradicionais de Montenegro, Voivodina e Kosovo (eu e minha incessante mania de maquetes). 2) Museu Militar - otimo. Tirando a bilheteira que parecia sobrevivente da tropa de choque do Milosevic ("Do you have any kind of disc----" "No." "Hah." "Vat's funny?" "Sorry?" "VAT'S FUNNY?"), o museu e' o de melhor acervo que vi em Belgrado. Fica dentro do Kalemegdan e conta a historia belica da Servia desde os primeiros colonizadores pré-romanos ate' a Primeira Guerra Mundial (o acervo para em 1918, justamente quando e' criada a Iugoslavia). 3) Museu de Arte Contemporânea - blafff. Achei que fosse exclusividade do MAC em Niteroi e do MAM no Rio, mas pelo jeito todo museu de arte moderna tem que ser construido num lugar ermo, ate' o qual e' preciso caminhar quilometros sob um sol no descampado, para entrar num edificio branco, amplo e vazio e ver obras de qualidade duvidosa. Minha companhia nestes todos, desta vez, foi Olivier, um frances de 19 anos que baixou no mesmo dormitorio do albergue que eu. E o garoto e' estudante de Cinema nada menos que na Sorbonne. Fala ingles com sotaque de Maurice Chevalier ("Senc re'ven forrr litol garrrrls"). E um palhaco! Quase nos esgoelamos conversando sobre comédias francesas (Gazon Maudit, O Closet?). Salvamo-nos do assassinato mutuo porque ambos desprezamos Tarantino. O problema e' que ele so conhecia filmes franceses - nada britanico nem indie ianque - e isso limitou o assunto. {Poalji komentar } { Prethodna strana } { Strana 12 od 17 } { Sledeĉa strana } |
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