Belgrado 2006 . parte II . "Belgrado, a Heroína dos Bálcãs"

{ 7:30, 6/8/2006 } { Kategorija posta viagem 2006 } { 0 Komentara } { Link }

A melhor sensação do mundo é confirmar as expectativas de suas próprias escolhas.

Belgrado não é um destino óbvio para os brasileiros que vão conhecer a Europa, e só esse motivo já seria justificativa suficiente para eu querer vir aqui. Fui eu que escolhi Belgrado, fui eu que decidi meus passos dentro da cidade, e foi muito bom gostar de cada coisa aqui. Mas o melhor de tudo foi ter vindo e descoberto um lugar que guarda uma BOA surpresa a cada esquina.

Talvez a principal delas tenha sido Srboslav, apelidado Srba, nosso contato (guia ou "fixer") por aqui. Cheguei até ele porque ele namora a melhor amiga da Alesja, a bielorrussinha que conheci no curso em Praga. É um sujeito de 29 anos, roqueiro, religioso (cristão ortodoxo, faz o sinal da cruz três vezes quando entra E quando sai das igrejas), fluente em inglês e alemão e, como a maior parte da geração dele, ex-soldado no exército iugoslavo durante as guerras da Bósnia (1991-1995) e do Kosovo (1999-2000). Na verdade, Srboslav não chegou a ser combatente, mas cumpriu o serviço militar obrigatório em Belgrado enquanto colegas e amigos de infância morriam no front.

Na segunda e na terça-feira, Srboslav nos levou pra ver o resto de Belgrado por onde não andamos no domingo. Infelizmente, não deu pra ver tudo. Ficaram de fora a cidade antiga (Zemun, até o século XIX ocupada pelos austríacos), os centros culturais e os bares flutuantes sobre o Sava. Também demos um azar danado com os museus: o Histórico Nacional está em reformas, o Histórico da Iugoslávia só tinha uma exposição pequena de arte contemporânea, o Etnográfico está em mudança de exposição permanente e no Mausoléu de Tito chegamos apenas 10 minutos depois de fechar. Conseguimos apenas ver o gigantesco Rolls Royce (blindado) do marechal.

Mas eis o que nós vimos: primeiro, Srba nos levou à Ada Ciganlija, uma antiga ilha fluvial transformada em península por um istmo artificial, onde os sérvios fizeram um parque que fica lotado no verão. As praias do rio costumam ficar lotadas (200 mil pessoas nos fins de semana, segundo ele, numa faixa de menos de três quilômetros) e as pessoas bebem numa espécie de calçadão com uma fileira de quiosques, como na Lagoa. Adivinhem qual é a maior novidade em drinks: guaraná. Só que aqui não é vendido como refrigerante, e sim como energético no estilo Red Bull. Não é doce, é muito azedo, mas dá pra reconhecer o gosto da nossa bebida tradicional. Vi, no meio do parque, pessoas treinando uma luta com espadas que não parecia asiática, e sim medieval.

A parte triste veio em seguida. Pela primeira vez na vida, vi destroços de guerra. Não existe como conter o choro. Não são escombros de algo que caiu de podre, ou que desabou por má conservação. São prédios que estariam em perfeito estado se não fosse por crateras gigantescas (20 a 30m de diâmetro), geralmente esféricas, causadas por bombas atiradas de aviões. Escritórios, repartições públicas, instituições estatais (civis), empresas funcionavam ali. Vêem-se as janelas com vidros inteiros ao lado de um vazio e imaginam-se as pessoas em seus locais de trabalho, até uma bomba americana cair sobre suas cabeças. A sede do exército era um único prédio ligado por uma ponte, e agora são dois: a ponte foi destruída. A torre da TV, orgulho da cidade, não existe mais. A antiga sede da polícia federal (não política!) tem dois grandes buracos redondos. O brasão da Iugoslávia, no entanto, continou intacto.

Srba nos conta como as pessoas viveram durante o bombardeio. Por 72 dias, eles não sabiam o que ia acontecer. A maioria se refugiava nos abrigos subterrâneos, e uns poucos se aventuravam nas ruas. Ninguém trabalhava, ninguém ia estudar, ninguém fazia mais nada. Não tinha futuro, amanhã, horizonte. Apenas se deixava o tempo passar, às vezes comendo. Eu sei o que é sentir isso, mas não consigo imaginar uma população inteira na mesma situação. Perguntei se houve roubos às casas vazias: nenhum. Na guerra, a solidariedade e o respeito mútuo são absolutos. As pessoas começam a ver beleza e felicidade em cada pequena coisa, numa criança sorrindo, numa mãe amamentando, num casal se abraçando. E, de repente, a sopa rala é deliciosa. Embora não deseje o sofrimento para ninguém, Srba diz que todo indivíduo deveria passar por isso uma vez na vida, para aprender a valorizar o ser humano.

Por outro lado, sérvios corajosos vestiam alvos nas roupas, nas cabeças e, provocativos, se juntavam em pequenas multidões nas praças e parques e sinalizavam para os bombardeiros: "Estamos aqui; atirem!". Outros ocupavam as pontes sobre o Sava e o Danúbio, fazendo escudos humanos para evitar a destruição delas (há muito poucas pontes no país inteiro, e uma das mais antigas delas, a Stari Most (Ponte Velha) de Novi Sad, a OTAN reduziu a pó... gratuitamente).

Seguimos andando pela mesma rua, onde fica a maioria das embaixadas em Belgrado. A dos EUA é ultrajantemente suntuosa e com uma segurança ostensiva. Chegaram a fechar permanentemente uma rua do quarteirão. Há duas semanas, uma simulação de atentado à embaixada ianque causou caos no trânsito da rua, que é movimentada. Mais adiante, há as sedes separadas dos poderes (presidência, governo/gabinete, parlamento) da República da Sérvia e da Federação Iugoslava, uma distinção que agora se tornou inútil. Há dois meses, as instituições do governo federal foram extintas e os prédios começaram a ser esvaziados. Na prática, a cidade ganhou alguns palácios a mais para ocupar.

Passamos pelo parque em frente ao Parlamento Iugoslavo, onde os sérvios fizeram a tal "revolução de outubro" de 2000. Foi o mesmo lugar que tínhamos visto uma semana antes, em um documentário exibido no curso do TOL. As cenas do povo invadindo, depredando e ateando fogo no prédio ainda estavam frescas na nossa memória. David, com larga artéria humorística como todo canadense, não se segurou:

"Me deu uma vontade danada de invadir o parlamento. Vamos?"

Pegamos um táxi e percorremos o bairro de mansões. Nosso objetivo principal: a casa de Milosevic, de onde ele saiu preso, humilhado, para ir morrer em Haia, nas circunstâncias estranhas que conhecemos. Até Srba, que não tinha a menor simpatia por ele e é insuspeito pra falar, acredita que o presidente foi assassinado. O taxista já sabia de cor o endereço. Paramos em frente. Uma mansão até modesta, menor que a do Roberto Marinho. Uma grade opaca só revelava o telhado branco. Dei uma de enxerido e subi no muro para espiar sobre a grade. Tudo vazio e sujo, com aspecto de abandonado. Srba me puxou. Disse que eu podia ter levado um tiro. A casa "abandonada" continua muito bem guardada.

Vimos também as catedrais de São Sava e de São Marcos. A primeira está em reconstrução, e pretende ser o segundo maior templo do mundo, depois do Taj Mahal (talvez o terceiro, se incluirmos a sede da Igreja Universal em Del Castilho). A segunda é uma coloridíssima igreja ortodoxa erguida como réplica de uma catedral macedônia.

Terminamos o dia de segunda-feira na rua Skadarska, uma ladeira de paralelepípedos pontilhada de cafés que geralmente têm shows ao ar livre de jazz, tango (estilo Piazzola) ou música tradicional sérvia. Pertinho dali, encontramos o Republika, um bar temático estilo retrô e literalmente underground (é subterrâneo) que se aproveita da estética titoísta/iugoslava para relembrar o país que acabou de acabar (e toca rock, ufa!). Óbvio que adorei. E elogiei tanto que me deram o menu como souvenir.

Compras: lojinha oficial do Estrela Vermelha, o maior dos dois times de Belgrado. O outro, Partizan, não tem tantos souvenirs à venda. Mais CDs baratinhos, DVD de filmes sérvios (não encontrei o "Terra de Ninguém", que é bósnio e satiriza os correspondentes internacionais metidos a aventureiros). Um mapa de Belgrado. Um dicionário Português-Sérvio e Sérvio-Português. E uma loja de brinquedos lotada de Playmobil.

A comida aqui não é sem-graça como em Praga ou "disfarçada" como em Bucareste. Aqui é novidade. Quitutes, guloseimas, nas confeitarias que chamam de "pekara" (parece "bakery" em inglês). Comi burek (um folheado feito com banha de porco e recheio de queijo ou frutas), um-churrasco-dentro-de-panqueca-cujo-nome-não-me-ocorre-agora, feito na rua (rostije), e piroški (uma espécie de pastel de forno eslavo). E um croissant recheado de "creme de champanhe". Delícia. Aqui em Belgrado não falta coisa gostosa pra comer.

Hoje passeamos pelo museu de Nikola Tesla, um mega-inventor sérvio que, apesar de ter vivido radicado nos EUA entre os 1890s e 1943, ainda é orgulho nacional. Ele trabalhou com Edison, desenvolveu sistemas de transmissão de energia elétrica, inventou o controle remoto e, diz-se, desenvolveu o mecanismo de transmissão de som por ondas de rádio antes de Marconi. Aí no Brasil, no entanto, a imagem de Tesla ficou ofuscada por gente nossa como Santos Dumont e Landell de Moura, outras vítimas de esquecimento e controvérsia. Mas aqui, ele está na nota de 100 dinares, uma das mais comuns.


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